Globo, Rodrigo March, 13/jul

A difícil tarefa de repassar os aumentos dos fornecedores sem assustar a clientela
De um lado, os fornecedores querendo aumentar preços. Na outra ponta, os clientes. No meio desses dois grupos, os empresários, que procuram saídas para pagar mais pela matéria-prima, sem fazer o repasse integral e assustar o freguês. Até porque, acostumado com a estabilidade, o brasileiro já não pensa duas vezes se tiver que trocar de produto por causa do preço.
O Boa Chance ouviu empresas de diferentes setores para saber o que elas estão fazendo para atravessar esse momento. Aumentar a produtividade, otimizar as vendas e introduzir processos produtivos novos são algumas das alternativas para compensar o aumento de custos.
Para não perder a clientela, o empresário Isnard Manso, dono do Centro Cultural Carioca, casa de shows no Centro da cidade, procura diluir os aumentos em produtos do cardápio que têm maior saída. Outra forma que ele encontrou para minimizar os reajustes é implantar ações que possam aumentar a fidelidade do público e sua permanência na casa. Uma delas é o “cartão bate-ponto”, que concede bônus para quem fica por mais tempo no estabelecimento. O Centro Cultural também tem uma escola de dança, e seus alunos contam com 20% de desconto no couvert artístico.
- O que acontece é que, de uns quatro meses para cá, eu venho observando um aumento de preços acima do esperado. Se não tiver criatividade, vou acabar pagando para trabalhar. Manter a casa cheia é uma das maneiras de minimizar o problema – destaca Manso.
Só 2,9% fizeram repasse integral, mostra pesquisa
Para o grupo Publitas, paulista do ramo de comunicação visual, que produz letreiros luminosos, a solução foi partir para a renegociação dos contratos. De porte médio, a empresa viu o preço de seus principais insumos subir nos últimos meses. Segundo o diretor-executivo do grupo, Renato Claro, só o aço aumentou 42% em um ano, e já há mais dois reajustes de 15% previstos para este mês e agosto. Já o salário inicial de engenheiro, ressalta ele, sofreu uma correção de 35% desde janeiro. Matéria-prima e mão-de-obra representam 85% dos custos de produção da empresa.
- No nosso caso, não há ganho de produtividade que compense isso. E eu não posso esperar a próxima renovação de contrato para recuperar o prejuízo, porque, como a inflação vinha estável, as empresas se sentiram à vontade para fixar reajustes anuais. A saída é apelar para o bom senso, mostrando que há um desequilíbrio econômico-financeiro – sustenta o diretor, que prevê uma queda no faturamento de pelo menos 15%.
Rodrigo Viegas, diretor da Fast Frame, rede de molduras e quadros, afirma que é difícil repassar os custos para os clientes de forma branda. A empresa tem procurado aumentar a eficiência e reduzir gastos da produção, como consumo de energia.
- Nos últimos 18 meses, a madeira teve seis aumentos em torno de 80%, em virtude da fiscalização mais rigorosa do Ibama. O vidro subiu 40% e a cola, 30%. Indiretamente, o petróleo participa de quase toda a cadeia produtiva – explica Viegas, ressaltando que os fornecedores também estão em dificuldade. – Além de cara, a matéria-prima está em falta no mercado.
O setor da construção civil também já sente o impacto dos reajustes de insumos básicos, conta Rodrigo Conde Caldas, vice-presidente da construtora Concal e da Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário do Estado do Rio (Ademi/RJ):
- Com o boom do mercado, a demanda aumentou. Em relação aos insumos, buscamos fazer acordos para evitar que os fornecedores aumentem demais a sua margem de lucro. Além disso, temos que ter mais cuidado no orçamento de obras novas. Quanto aos salários, a solução é qualificar e promover pessoal.
Na média do mercado, entretanto, a pressão inflacionária e o inchaço da folha de pagamento são menores para as pequenas empresas, como mostra pesquisa do Sebrae-RJ realizada, em maio, junto a 500 empresários do Estado do Rio. Do total, apenas 2,9% repassaram os aumentos de custos integralmente aos preços, enquanto 65,6% o fizeram parcialmente. Já os outros 31,5% ainda não efetuaram o repasse para o consumidor.