O Globo, 20/fev
O estouro da bolha imobiliária nos Estados Unidos foi o estopim da crise financeira que abalou a economia mundial, e é muito provável que a recuperação comece a ocorrer exatamente quando o mercado americano de imóveis se estabilizar.
Foi assim, por exemplo, na grave e idêntica crise enfrentada pela economia japonesa nos anos 90. O crédito hipotecário é a principal forma de financiamento do sistema bancário nos Estados Unidos, chegando a representar quase 40% das operações. Soma US$ 12 trilhões, pouco menos de dez PIBs brasileiros. A facilidade de crédito para compra de imóveis nos Estados Unidos, que decorreu e ao mesmo tempo alimentou o último ciclo de forte crescimento econômico ao redor do mundo, fez com que os preços dessem um salto. Como os próprios imóveis servem de garantia para os financiamentos, os devedores acabaram seduzidos pela possibilidade de contratação de uma segunda hipoteca ou complementação do financiamento original, ampliando sua capacidade de consumo.
A contrapartida negativa desse processo é que a sociedade americana se endividou excessivamente e, quando a curva dos preços dos imóveis se inverteu, muita gente optou por não pagar seus financiamentos, porque o valor devido superava de maneira considerável a avaliação de suas casas, ou por falta mesmo de dinheiro, por causa da alta dos juros internos. Ao retomarem os imóveis, por falta de pagamento, os financiadores pressionaram ainda mais o mercado ao colocálos novamente à venda, iniciando um movimento de depreciação que ainda não terminou.
Os financiamentos hipotecários são lastreados por títulos que giram entre os agentes financeiros.
Esses papéis também ficaram sem comprador e viraram “micos”, como se diz na linguagem do sistema financeiro. Pela gravidade da crise ficou evidenciado que o mundo poderia caminhar para uma depressão similar à dos anos 30. Os governos tiveram de agir, e é da administração de Barack Obama que se espera intervenções mais eficazes para inverter a espiral negativa.
E realmente o presidente tem lançado pacotes de ajuda, envolvendo negociações bem duras com o Congresso, voltados para diferentes áreas. Ao mesmo tempo que investimentos públicos se multiplicarão, as montadoras de veículos vêm recebendo um socorro financeiro, e a negociação dos chamados títulos tóxicos será estimulada.
Faltava um programa específico para os devedores que querem manter suas casas, mas não estão em condições de pagar os financiamentos.
Agora, US$ 250 bilhões atenderão especificamente esse segmento, favorecendo nove milhões de famílias americanas. Completado o quebra-cabeça, só resta aguardar que os mercados reajam positivamente.
A aposta é que a estabilização do preço dos imóveis que lastreiam os papéis tóxicos facilitará a recuperação do sistema financeiro.